‘Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus’. (Lucas 9:62 NVI)

Em 1519, Hernan Cortez partiu de Cuba em uma ousada missão de conquistar o México. Quando desembarcaram em Vera Cruz, ele prontamente ordenou que alguns de seus 700 homens incendiassem dez de seus onze navios e mandou o outro de volta para a Espanha. Observaram enquanto sua única estratégia de saída afundava nas profundezas do Golfo do México. Essa decisão descarada eliminou a possibilidade de qualquer retirada. O único curso de ação que restava era prosseguir em explorar o interior e lutar por seu comandante.

Em tempos como este, podemos escolher viver a vida com ou sem Deus. Se escolhermos o caminho de Deus, não há garantias de que será fácil. A vida de Abraão, Elias, Jesus e de seus discípulos nos mostra que será caro. Estamos cientes das implicações do desligamento mundial. Isso é algo sem precedentes, e a incerteza está afetando todos nós. Qualquer pessoa que preveja o resultado é rotulada de acordo com a nossa visão: pessimista, otimista ou realista.

Estávamos compartilhando uma piada outro dia: “A disciplina salvou a China, a indisciplina afogou a Europa, enquanto a ignorância matará a África e a negação será custosa ao mundo transatlântico”. Nossas atitudes em relação ao coronavírus talvez sejam exatamente o que nos separam da destruição.

Deixando todas as piadas à parte, na minha opinião, atitudes em relação aos direitos individuais e o bem maior para as massas é o que diferencia a abordagem de cada país em relação à pandemia de coronavírus. Se os indivíduos devem ou não se sacrificar para proteger as economias de seus países. A profecia não é meu ponto forte, mas acho que nossas respostas à pandemia estão atualmente ligadas ao que achamos que o resultado será. No entanto, é muito cedo para prever isso.

Em Lucas 9:51, somos informados de que, quando chegou a hora de Jesus ser levado para o céu, Ele estava determinado a continuar sua jornada à Jerusalém, apesar da rejeição. Ele repreendeu Tiago e João quando pediram permissão para orar pelo fogo do céu para destruir uma cidade. Jesus estava ciente do que estava prestes a acontecer com Ele. A Bíblia diz que Ele estava angustiado no jardim do Getsêmani.

Em Marcos 14:34, Jesus diz aos seus discípulos: ‘A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem”. (NVI) No versículo 36, Ele ora repetidamente: ‘Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que Eu quero, mas sim o que tu queres.’. Sabemos que Jesus estava ciente do que estava por vir e Ele era capaz de se afastar ou fazer tudo desaparecer. Ficar diante da prisão, julgamento e crucificação demonstrou seu poder sobre o inimigo. Por outro lado, seus discípulos queriam erradicar sua oposição.

Até certo ponto, somos culpados disso em nossas próprias vidas quando queremos ver a destruição de nossos inimigos ou pessoas que nos prejudicaram. Jesus se recusou a usar seus poderes de maneiras contrárias à vontade de Deus. Ele sabia que seria vitorioso de qualquer maneira. Fugir não fazia parte do acordo.

Jesus não venceu escapando da cruz, mas encarando-a, em obediência ao Pai. Enquanto Ele orava, ‘não a minha vontade, mas a sua’.

O espancamento, a humilhação, a zombaria e a crucificação não separaram Jesus do amor de seu Pai (Romanos 8:39). Nenhum amor é maior que o sacrifício supremo de dar a vida pelos amigos. Jesus provou seu amor por nós morrendo na cruz por nossos pecados. Ele pagou pelo nosso perdão.

Em um mundo que busca satisfação própria, geralmente ouvimos as pessoas dizerem: ‘Eu mereço melhor’ ou ‘Eu mereço isso ou aquilo’. Nós ás vezes sentimos que Deus nos deve por tudo o que temos feito por Ele.

Lembro-me de que, durante nossa graduação na faculdade de medicina, bancos e empresas automotivas patrocinaram nossos lanches na esperança de que mais tarde comprássemos seus carros muito caros para se adequar ao nosso ‘status de médico’. Eles diziam coisas como: ‘Você trabalhou para isso, se recompense.’ Alguns caíram nessa. Mas outros de nós sabiam o que nosso sucesso significava para as famílias e amigos que nos apoiaram.

Sem o apoio financeiro, não seria possível se formar na universidade. É verdade que estudamos muito e, talvez, até sofremos ‘distanciamento social’ durante os exames, enquanto tentávamos passar pelas provas de anatomia e de histologia. Mas isso não justifica levar todo o crédito por nossas realizações e nos recompensar. Nosso sucesso foi pago por outros.

Nosso trabalho como médicos é muito exigente e, às vezes, podemos nos sentir desvalorizados por nossos empregadores, governamentais ou privados. “Merecemos melhor”, “a sociedade nos deve”, dizemos a nós mesmos. Mas em momentos como este, vemos que a humanidade só pode sobreviver se permanecermos juntos. Todos enfrentamos a morte, quer gostemos ou não. Nosso Criador pode chamar alguns de nós para casa por coronavírus ou câncer ou acidente.

Costumo brincar com meus pacientes antes das injeções que, embora eu odeie injeções, elas são boas para os pacientes. Em tempos como este, quando estamos todos expostos e vulneráveis, é bom refletir como o sofrimento e a dor podem ser a maneira de Deus nos moldar.

No livro de Henri Nouwen, ‘The Wounded Healer’ (O Curador Ferido), ele nos exorta a estar dispostos a ir além do nosso profissionalismo e a deixar-nos abertos como companheiros de nossos pacientes, também humanos, a feridas e sofrimentos. Foi isso que Jesus fez e somos feitos à sua imagem. Em outras palavras, curamos através de nossas próprias feridas.

Os discípulos não estavam isentos de ondas e turbulências ao atravessarem o mar. Mas Jesus estava com eles no barco. É reconfortante saber que Ele está presente e que podemos clamar por Ele para fazer algo sobre nossas próprias tempestades. Ele prometeu não nos deixar nem nos abandonar (Hebreus 13:5).

Qual é então a nossa missão? Sugiro que nossa missão é obedecer à vontade de Deus. A obediência determina que façamos a vontade do Mestre. Isso envolverá dor e sofrimento, mas podemos ter certeza de que, não importa o que aconteça, Ele está lá conosco. Não existe ‘eu’, mas ‘nós’. É um destino compartilhado.


Augustin Lutakwa
ICMDA AEO na África Subsaariana

Tradução: Médicos de Cristo

Leave a Comment